Batida Salve Todos

Desculpa.

Pai e mãe, venho hoje pedir desculpas. Não pela minha adolescência pseudo-rebelde, nem por ter sido mãe solteira. Não peço perdão pelas tatuagens nem pelos palavrões,  tão próprios da minha geração e da minha personalidade. Nem venho, arrependida, falar sobre maconha nem me justificar quanto a faculdade particular.

Venho hoje,  não pelas minhas falhas pessoais de filha mais velha e primeira neta mimada, muito pelo contrario, venho em nome de uma geração inteira pedir perdão.

Nos anos 1980 estávamos tão ocupados com shows do Menudo e com o cubo mágico e não vimos quando vocês choraram a morte de Tancredo Neves.  Talvez eles gostem muito do cara, devo ter pensado entre um diplick e uma fita cassete do Pink Floyd. Não tive tempo de perguntar o que significavam aquelas lágrimas. Entretidos com River Raid no Atari, não paramos para entender, como deveríamos, o “Diretas Já” nem porque estavam todos de verde e amarelo se nem era Copa do Mundo. Não prestamos a devida atenção quando vocês contaram as histórias de amigos desaparecidos durante a ditadura, estávamos ocupados demais usufruindo da nossa liberdade.

Portanto, pai e mãe, a Democracia nos foi entregue de bandeja, como uma fatia suculenta de bolo de rolo. A gente sabia que era bom para o país, mas não tinha ideia, entretidos com nossa infância, de como ela tinha sido feita. Ninguém parou de bater papo no Mirc para se perguntar como aquelas fatias de doce de goiaba haviam sido colocadas tão delicadamente entre as finas camadas de pão de ló. Se tivéssemos dado uma pausa no vídeo cassete, perceberíamos, entre as cenas de ação de De Volta para o Futuro, que permeando o pedaço daquele bolo haviam camadas e mais camadas de luta e sangue do povo brasileiro.

E assim, seguimos por 1990 e 2000 como se a liberdade fosse um presente que a gente ganha quando não é natal nem aniversário. Como se o respeito ao voto fosse parte da evolução da espécie de que Darwin tanto falou.  Parecia tão fácil que a gente não aprendeu a cuidar da Democracia, pai. A deixamos largada, ignoramos sua importância, superestimamos sua força. Deixamos ela vagar, solitária, por becos escuros e úmidos.  Não sabíamos, mãe, como ela era  frágil e delicada. Achávamos que, assim como nós, a Democracia iria durar para sempre. Que, assim como as aventuras da Sessão da Tarde, ela teria um final feliz.

Agora, entalados, não pela bala soft da nossa infância, mas pelo assombroso  fim anunciado de todos os direitos pelos quais vocês lutaram, nós pedimos perdão. Não soubemos cuidar da nossa herança. Não tínhamos como saber.

Perdão se o voto de vocês, expressão máxima deste regime político onde o povo exerce a soberania, vai perder a validade sem nenhum motivo plausível ou justo. Sei que foram votar carregando a bandeira de uma ideologia de igualdade entre as classes mas, pai e mãe, aprendi hoje o que vocês já sabiam desde os tempos do Golpe de 64: o poder engole a liberdade, a ganância engole o respeito,  a mentira engole a imprensa e, o pior de tudo, o dinheiro engole o amor.

Pai, você aos 73 anos de idade, me disse hoje: “sou pessimista, está tudo perdido. Perdemos tudo pelo que lutamos uma vida inteira.”

Te respondo com as palavras de José Saramago: “não somos pessimistas, o mundo é que está péssimo”.

Obrigado por nos ensinar de que lado ficar nesta luta desigual entre formigas e lobos. Mas sabe de uma coisa? Ouvi dizer que quando as formigas se juntam, formam um exército capaz de derrubar uma alcatéia inteira.

Cala a boca e ouve o mundo.

Querido diário, eu não tenho #FotoComNaná para postar nas redes sociais. Não nos cruzamos no cinema nem no aeroporto.  Ele não me disse (_____________________________insira aqui sua frase #FilosofiaDeNaná preferida).

É certo que moramos na mesma cidade, mas Recife é grande como uma van de lotação e, enquanto ele estava sentado ao lado do motorista, eu estava com labirintite no fundão.

Teve aquele dia que eu, em pleno exercício da minha função de jornalista, entrevistei Naná. Estávamos separados, além do microfone, pelo abismo da falta de intimidade. Reza o estatuto do bom comportamento jornalístico que não pega bem fazer self com o entrevistado. Eu, então, trolei a brodagem e não disse o que deveria ter sido dito: “ Naná brother, tu é foda”.

A entrevista ocorreu sem grandes demonstrações de fanatismo. Fiz uma meia dúzia de perguntas idiotas (é difícil ser inteligente diante de alguém que fala tambores e traduz berimbau) seguida de respostas interessantes do mestre da percussão. Mas, foi basicamente isso. Nenhum momento mágico-iluminado de troca de experiências cósmicas-ultra-sensoriais. Segui com meu saudável grau de imparcialidade jornalística, reprimindo, a base de “cala a boca”, minha admiração desprovida de filtro. Quando ninguém estava olhando tirei uma foto #pagandodefã que não postei nestes últimos dias #pagandodehumilde.

Depois, muitos anos depois, voltei a entrevistar Naná. Foi numa tarde abafada de Janeiro que o músico declarou seu amor pelo Parque da Jaqueira. Eu perguntei sobre o parque, ele respondeu sobre o parque. Isso é amor.  Diferente de certos artistas que respondem delirantemente coisas que jamais foram mencionadas na entrevista (Tom Zé, estou falando de você), eu só queria agradecer a gentileza por Naná  ter prestado atenção na pergunta e ter respondido de maneira lúcida e resumida.

Pronto.

Nestes relatos minimalistas e cheios de isenção emotiva, resume-se minha convivência com Naná Vasconcelos. Nenhuma luz espada de sabre cruzou nossos olhares e nenhuma conversa digna de virar textão no Face foi traçada entre nós.

Uma lástima.

Toda minha timeline posa sorridente ao lado de uma foto ou de uma história com Naná Vasconcelos. Longe de ser crítica, esse texto é a inveja em seu estado puro e cristalino. É a vontade de ter dividido, não só a cidade, mas dois dedos de prosa com o homem que batucava como se fizesse amor.

- “Cala a boca e ouve o mundo”, ele disse, no final da entrevista, tão baixinho que meu microfone não gravou.

Cala boca, Téta, e ouve o mundo.

Futilidades nossas de cada dia.

Blog

29 de Fevereiro

Sabe quando você almoça  como se não houvesse amanhã e, só depois, descobre que tem sobremesa?

Pois bem, assim é 29 de Fevereiro.

O mês já deu sua cota de falta de filtro mas, do nada, nos presenteia com mais 24 horas inteirinhas de um Fevereiro que o vento não levou.

Então hoje é Fevereiro, com sensação térmica de Março.

Para chocar a audiência, o presente do ano bissexto vem em forma de segunda-feira, essa linda.

Poderia ter dois domingos seguidos, mas qual  a graça de uma vida de privilégios? Somos classe média, descolados, pseudo-intelectuais e politicamente atuantes (no facebook); se for pra ter um dia a mais neste 2016, que seja segunda-feira. Mais um dia para lavar, abrir, fechar, lucrar, mudar de canal, comentar o Oscar, julgar Glória Pires, criticar o Governo, postar textão no face, dar um like no coleguinha,bocejar e dormir com a sensação de dever cumprido. E tempo perdido.

29 de Fevereiro é pedir a saideira depois que o bar já fechou.

Fevereiro, bixa, vai na OLX e desapega.

 

Pretérito perfeito

Quando a gente viu, já era. Quer dizer, já tinha sido.
Dava pra voltar atrás, claro. Mas, qual a lógica, ou mesmo a relevância, de voltar atrás do que já se foi?
Já foi. Ponto final. Ás vezes de exclamação, é verdade.
Sua infância, já foi.
A reunião de condomínio, foi (mesmo que você nem tenha ido).
Aquele beijo. Foi.
O vestibular.
A vontade de fazer xixi.
Sua avó.
O começo do fim. Até ele, já se foi.
A espinha, o medo do escuro, o nome/lugar/objeto, a última decepção (aquela, depois da penúltima), a conta de luz do mês passado. Foram todos.
E onde estão as coisas que ainda vão acontecer?
O futuro comeu.
O que fazer com o presente?
Toca a campainha e corre.

*Não é saudade do passado. É vontade do agora.