Batida Salve Todos

O final do ponto final.

A ortografia é uma coisa linda. De uma maneira geral, essas regrinhas fofas, que fizeram você ficar de recuperação na sétima série, servem tão somente para estabelecer o padrão de uso correto da grafia das palavras, essas lindas, e , o melhor, o uso dos sinais de pontuação. A gramática veio para te ajudar. Claro que aqui não estamos nos referindo a crase porque né, essa só existe para te fuder mesmo. Mas, via de regra, a gramática é a bíblia do bom entendimento do nosso querido português.

O que seria da nossa vida sem a existência de uma boa exclamação? Claro que uma só basta, vale lembrar. E a deliciosa pausa dramática dos dois pontos, quem sabe o que pode vir depois daquelas duas bolinhas que se equilibram uma em cima da outra? Não custa sugerir que, seja lá o que vier depois dos dois pontos, que venha em caixa baixa.

Acontece, senhoras e senhores do júri, que a vida é mesmo uma sacana. Primeiro veio, sorrateiro e dissimulado, o novo acordo ortográfico que, entre outras coisas, nos roubou o acento de ideia. Como uma ideia pode ser brilhante, nos dias de hoje, se nem mais o acento agudo, que lhe conferia respeito e credibilidade, ela tem?

Mas piora.

Assassinaram o ponto final.

O ponto final, minha gente.

Dessa vez a culpa  nem é  do novo acordo ortográfico porque, nem ele teve tamanha audácia.  A autoria deste crime inafiançável é todinha do what’s app. Estudos, realizados na Universidade de Binghamton , nos Estados Unidos, apontam que usar este milenar sinal de pontuação é uma péssima ideia quando se trata de mensagem no zapzap.

Qual seria a boa ideia então? Podemos acabar a frase com “câmbio,desligo” ou com “beijo, me liga”? Ou será que, simplesmente, nunca mais acabaremos uma sentença? Teremos uma vida feita de vírgulas e reticências enquanto vagamos no limbo do sem fim, é o que parece.

O ponto final? Velho, vocês tão tirando onda.

O estudo afirma ainda que, na hora de usar aplicativos de mensagens, o melhor mesmo é esquecer das normas gramaticais e diz que as pessoas não se sentem confortáveis com frases que terminam com ponto final.

Mano, as pessoas não se sentem confortáveis em um ônibus lotado num dia de chuva.

Das duas uma: ou essas pessoas que não se sentem confortáveis com o ponto final estão precisando de terapia e surra, ou esses gringos passam tempo demais no facebook no lugar de pesquisarem uma cura pro câncer.

E sabe como acaba esse texto? Com um ponto final sambando na cara da comunidade científica.

*Textinho em homenagem as meninas fofas do marketing do Kembali Hotel.

Antes/Depois

Eu chamo tecido, minha mãe chama fazenda mas, tanto faz, porque estamos aqui para provar que um pedaço de pano faz milagres!

Eu e Rodrigo nos mudamos recentemente e estamos, aos poucos, apesar de minha ansiedade vir aos muitos, transformando a casa pra ela ficar com nossa cara. Não temos arquiteto, nem designer de plantão, mas temos vontade, criatividade e um Google todinho cheio de ideias pra a gente se inspirar.

Então, quando ganhei esse sofá de vime da minha sogra (que foi da avó de Rodrigo), comecei uma busca incessante atrás de tecidos legais/descolados para dar um up no look dele. Andei por TODAS as lojas de tecido da cidade. Todas. Então uma amiga, Andrea Tom, sugeriu que eu falasse com as meninas da EstampaBanana. Elas imprimem em tecido tudo o que você imaginar. Pronto, elas imprimiram, mamãe costurou e agora temos um sofá relíquia de família com cara de uber trend master cool. Tadahhhhhhhh:

SofaAntesDepois

Ora (direis) ouvir estrelas*

Foi no dia 1 de 2016 que o céu ficou mais perto. Difícil dizer se ele resolveu chegar mais perto nesta exata data, ou se ele já estava por ali, de bobeira, e ninguém percebeu porque o zapzap, instagram, novela, FIFA 15 e o  Face estavam mais perto ainda. O fato é que naquela estranha noite de 2016, se você esticasse um pouco as mãos, tocava nas estrelas. Mais ainda, se prestasse atenção,  ouvia estrelas.

O dia mal tinha acabado, nem eram 6 horas ainda, e  assim como quem diz “presta atenção, porra”, as luzes se apagaram e o céu se acendeu. Faltou energia de Japaratinga até  Porto de Pedras. Os primeiros minutos foram de “já já volta” mas deu oito horas e nada. Nove horas e nada. Dez, nada.

Quer dizer, tudo. Todas as estrelas, sem que nenhuma levasse falta na chamada oral, estavam ali. Todas esperando alguém olhar pra cima, ou pro outro, ou pra frente.

As cadeiras de praia, logo ganharam nova serventia: viraram cadeiras para sentar na grama e olhar o céu. Posso jurar, mesmo atropelada por duas taças de vinho barato e de uma escuridão que abraçava o mundo, que o céu estava mais perto. Se tivesse uma régua que chegasse pelo menos na Ursa Menor, poderia provar sem grandes afobações.

Depois das 11 horas a esperança de “já já volta” já tinha ido. O jeito era abrir as janelas, deixar a noite entrar e deitar abraçados com as sombras.

A casa de praia estava cheia e cansados das inconstâncias do dia,naquela noite frondosa de sonhos, dormimos engolidos pelo melancólico breu. Pouca brisa, muita gente se virando de um lado para o outro. É assim mesmo, a gente se desacostuma com o silêncio, com a temperatura do mundo, com o balançar das ideias.

Papai, em Japaratinga, sonhou que Victor, que estava dormindo em Maria Farinha (em pleno gozo da luz elétrica e do barulho do ar condicionado) aparecia em sua janela para se despedir dele. Sentou na cama, encarou a escuridão e deu o veredito: vou morrer hoje. Já Victor, lá do outro lado, sonhou com papai, no mesmo horário naquela mesma estranha noite. Os dois conversaram animadamente, madrugada a dentro, separados por kilometros de distancia. Victor achou que ia viver para sempre.

Rodrigo recebeu a visita de médicos, eu sonhei com Pilar rindo na minha casa nova (pra no dia seguinte acordar com a ligação de KK – meu irmão, pai de Pilar – avisando que os dois tinham combinado de “vamos passar na casa de tia teta, sábado”?).

Naquela noite, como eu ia dizendo,o céu estava mais perto e as lonjuras mudaram de lugar.

Algumas pessoas também mudaram de lugar.

O dia seguinte amanheceu com muito sol e nenhuma TV. Ainda sem energia, as histórias na mesa do café davam conta de sonhos, imagens, alguns pesadelos e nenhuma muriçoca. Histórias do escuro que a gente respirou e das estrelas que a gente viu, mesmo de olhos fechados.

Se a gente soubesse ler estrelas, elas teriam dito, sem nenhuma cerimônia: “2016 vai ser iluminado mas, tem que desligar o celular para enxergar.”

*De Olavo Bilac, em Via Lactea:

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!” e eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto

A via-láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

 

Cancelamento.

Estou decidida, este ano o aniversário será cancelado.

Por cancelamento do aniversário não confunda com o cancelamento da festa de aniversário. Esta, a pobre, já foi abolida desde 1978,  quando, mesmo com coxinha, bolo e 348 brigadeiros, apenas Renata, do 204 e Lulão, do 301, apareceram. Isso, que fique anotado, só porque moravam no mesmo prédio e não tinham viajado – uma devido a catapora, a outra por conta da recuperação da escola.

Refeita da repetida sequência de, ano após ano, ver o “vai ser apenas um bolinho” se transformar em “foi apenas um bolinho”, a desistência de fazer festa foi, não só necessária, mas a irrefutável prova de que ter nascido entre natal e réveillon é uma merda mesmo. A renuncia da solenidade comemorativa que marca a entrada de um novo ano foi aceita com certo conformismo disfarçado de desapego. Dia 27 se tornou , então, o dia do #nãovaiterbolo #porquetátodomundoviajando #nestaporra. É o ônus de ter nascido depois de Jesus e antes do ano novo. O bônus, bem, este ainda não descobri qual é.

Desfeita a provável confusão entre o cancelamento da festa e do aniversário em si, sigamos com com o real motivo desta suspensão, neste simpático ano de 2015: fiz umas contas e, noves fora nada, cheguei a conclusão que estou muito bem com 41 anos e, não vendo a real necessidade de fazer 42, fechei a venda e resolvi pular este aniversário. Examinando cuidadosamente, percebi que minha decisão não terá consequências desastrosas. O máximo que poderá acontecer é, se você durante suas férias em Carneiros ou Madagascar (isso no caso de ter sinal de wifi ), lembrar de conectar o Face para mandar uma mensagem de “estou longe mas lembrei de você”, vai receber de volta uma resposta automática desta rede social avisando “status do evento: cancelado. Motivo: Téta pretende ficar com 41 anos, pelos próximos 5 aniversários”.

A confusão causada pela falta de informação pode pegar o leitor desprevenido   imaginando que “Téta não quer ficar velha”, o que posso garantir, não é o caso. Estou muito melhor agora do que com 20 anos, com ou sem brigadeiros, e tenho certeza que aos 45, 48 ou 52 vou estar “vai mais pra lá que eu sou foda”. O que se dá, no entanto, é que mais um ano significa mais experiência e amadurecimento e, dos dois, já tenho em estoque.

Tanto uma, como a outra,  experiência e amadurecimento, só vêm mesmo com uma boa rasteira da vida. Destas já tive tantas que perdi as contas: não consegui fazer permanente no meu cabelo em 1993, levei pau no vestibular de publicidade, não fui selecionada para a equipe estadual de GRD em 85, levei tantos pés na bunda que perdi a conta, quebrei o pé na primeira vez que joguei futebol, engravidei aos 23, virei mãe solteira aos 24 (só aí já amadureci 10 anos em 10 meses), casei/separei, comprei uma casa/ vendi a casa,  assisti o 7X1 da Alemanha, e por aí seguem incontáveis lições que me fizeram amadurecer mais do que manga rosa em janeiro. Seguindo a teoria de que o que não nos mata, nos emputece , já tive experiências ruins o suficiente para contabilizar aí, por baixo, uns 54 anos de amadurecimento forçado, que nem banana enrolada em jornal. Assim, chegamos, agora todos juntos, à conclusão de que, um aniversário a mais, um a menos, não faz falta nem no feed do facebook.

Sem falar que 2015 não foi um ano de amadurecimento, foi um ano de felicidade plena e absoluta. Quando se está feliz, se amadurece pouco. A gente fica ali, bestinha, só contemplando o que deu certo e descrente da sorte alcançada. Fiquei assim, parada no tempo com tanto amor e tanta conquista que até esqueci de ficar mais velha.

Portanto, voltaremos a tocar no assunto aniversário, lá por 2018.

Proibido estacionar.

Tinha esse portão verde, enorme, com a placa, não menos enorme, “não estacione dia ou noite”. O portão, vejam bem, ficava em uma rua com meio fio amarelo – amarelo is the new black – e, notem, do lado esquerdo do portão, ali parado, como quem não quer nada, tinha esse poste numa vibe ostentação da cttu, com a placa de proibido estacionar.

Então , vamos rever os fatos, caso a questão caia na próxima prova do Enem ou do DETRAN:

Portão + placa de proibido estacionar + meio fio amarelo + não estacione dia e noite = ?

É uma pergunta difícil, calma, não precisa responder assim, de supetão. Pode fazer aí umas contas de cabeça e até usar calculadora, se for o caso.

Você, que gosta de dar palpite no facebook e expressar sua opinião sobre tudo, diz aí, o que você faria caso tivesse uma caminhonete branca importada e quisesse estacionar justamente nesta rua em frente a este tão simpático portão? Ajeitaria seus óculos rayban pelo retrovisor, jogaria um “foda-se sociedade chata cheia de regras” , para combinar com sua atitude “tenho um carro bom, portanto faço o que quiser” e, chocando a audiência, estacionaria na FRENTE do portão.

Claro que, como todo bom filme de Hollywood, essa história tem um plot twist. A trilha vai da orquestra para o soundtrack de terror e, deste mesmo portão, sai Téta Barbosa (gosto de falar de mim em terceira pessoa ) com o espírito de Carry a estranha, no corpo, preparada para protagonizar um episódio de Kill Bill e atirar em quem se mover.

Com pensamentos inspirados em O Iluminado, cenas de cortar os pneus e arranhar o carro passaram, como numa projeção de slides, pela minha cabeça distorcida pela indignação. Mas será possível que a Zica, os terroristas, a lama em Mariana e a microcefalia não são suficientes para terminar este Dezembro de grandes espetáculos. Não?

Pois armei meu circo e, como cachorro que faz xixi no poste para marcar o território (me mudei pra cá faz 10 dias), peguei batom vermelho para escrever poesias no carro deste exemplar cidadão recifense. Achei que o MAC Ruby seria a cor mais indicada para realçar o branco recém lavado e polido do carro. Comecei pela frase de Cecília Meireles que diz “não se estaciona em frente a portão, neste caralho”, seguidas pela filosofia de Nietzsche “se parar aqui de novo, eu vou arranhar seu carro” e finalizei com a romântica poesia de Manoel de Barros “é proibido estacionar nesta rua, seu idiota”.

Lá de longe, o senhor de cabelos brancos, óculos rayban e atitude BMW perguntou: quem é essa doida? Não ouvi ele pronunciar as palavras, mas tenho certeza de que foi isso que ele pensou. No que eu respondi: a mesma louca que segue regras, obedece a lei, respeita as pessoas e paga os impostos.

Considerando que o dono do carro ignora leis e acha que pode manipular as pessoas sem respeitar o próximo, posso apostar que ele se chama Eduardo e atende pelo sobrenome de Cunha.

Não sei em Brasília, mas aqui, na minha rua, #nãovaitergolpe

*Informação adicional: o dono do carro levou uns gritos meus (sorte dele que eu não bato em pessoas de óculos) e jurou que nunca mais estacionaria no meu portão. Os flanelinhas da rua observaram o barraco e posso apostar que não terei mais problemas deste gênero. A notícia “a dona da casa é louca” vai se espalhar pelo Recife como se dissessem “não é legal estacionar em frente a portões”.